Em 22 de abril, numa conferência da ONU em Genebra, o ganhador do Nobel Geoffrey Hinton comparou o desenvolvimento de inteligência artificial a um carro muito rápido sem volante, argumentando que a capacidade avança mais rápido que a governança.
A metáfora funciona porque separa duas coisas que costumam ser confundidas no debate. Velocidade não é o problema declarado; ausência de direção é. O argumento não pede que o desenvolvimento pare, pede que exista mecanismo de controle proporcional.
O contexto do mês dá peso concreto à imagem. Duas semanas antes, uma empresa havia anunciado e restringido no mesmo dia um modelo que encontrava falhas em software auditado há décadas, decisão tomada por ela mesma, sem estrutura pública para avaliar.
Foi exatamente essa lacuna que os meses seguintes tentariam preencher, com decreto criando revisão prévia, memorando de segurança nacional e negociação de padrão voluntário entre governo e as três maiores empresas.
O que a discussão ainda não resolveu, e que a metáfora não alcança, é quem constrói o volante e com que legitimidade, num setor em que quem tem a informação técnica para desenhar o controle é quem seria controlado.
